Dormia em um sono pesado e nos meus pesadelos apareciam os
relances daquela traição. Aquele fantasma que me perseguia e se escondia
nas curvas da minha vida. Meu céu se desintegrava e meus olhos se
perdiam tentando lembrar dos seus.
Eu seguia o destino sem mim. Era somente uma caixa de ossos
andando por aí, acompanhando o que a vida havia traçado. Eu era tudo o
que não tinha mais, perdendo tudo aquilo que me fazia feliz.
Nada me fazia muito sentido. Meus dias e noites se passavam
chorando na escuridão de uma louca e existente solidão. Uma solidão que
me corroía. Não entendia o porquê ficava tão incomodada com os
sentimentos que me cercavam. Ou a falta deles... Deixava-me levar pela
perdição de uma rua infinita e escura.
Todos tinham certeza das minhas dores quando eu falava. Era
a mais pura melancolia expressada em palavras. E o meu pedido a Deus
para que me levasse desse mundo tão raso era só um lapso de confusão
antes do primeiro copo de uísque do dia.
Depois, passava as restantes horas afogando-me naquela
dose. Com um copo pequeno comparado com a minha dor. O álcool se fazia
par do meu sofrimento e dançava pelo meu corpo. Até eu adormecer...
E esse ciclo se repetia desesperadamente, acordava ainda
com o cheiro de bebida impregnado no cabelo e ia tomar um banho. A água
fria perfurava-me o corpo e escorria pro ralo junto com as minhas
lágrimas.
Vestia-me, acendia um cigarro e escrevia sobre tudo aquilo
que me perseguia. Nasci pra vomitar palavras em um papel depois de tanto
sofrer.
Bruna Beatrice Manhães

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