Cicatriz
Eu
quero ser a tua sombra para nunca mais te largar e te encorajar quando o medo
bater na tua porta. Anseio estar contigo em todo instante ou segundo, só para
viver no teu corpo e respirar junto a tua alma, e ser a marca – ora ferida
incurável, ora tatuagem – que a água da chuva, banho ou da torneira não tiram.
Desejo abandonar minha carne e me cravar a fogo na tua pele. Quero ser
simplesmente uma mísera parte do teu existir.
Desejo
ser a escrava desolada que o ama sem ser amada, para te cobrir com lençóis nas
noites frias e acariciar teu rosto quando as lágrimas caírem. Anseio manhã,
tarde, noite e madrugada ser a tua arma a executar as justiças infiéis que
desejas da mesma maneira que desejo morrer na cruz no teu lugar quando seus
pecados ultrapassarem o limite. Quero ser a morada quando não tiveres casa e
acima de tudo um espírito bondoso que vive seguindo teus passos.
Quero
ser a cicatriz que lembra, mortifica e prende tuas dores e até mesmo amores,
para saciar tua sede antes dela chegar e te alimentar até o momento que
decidires morrer de fome. Somente assim me perpetuarei na tua alma – na tua
consciência perene – e jamais largarei minhas garras do teu peito ou meus
olhares dos seus olhos, azuis como o oceano enfurecido. Anseio ser a cama a te
receber, tua roupa a te tocar, tudo o que coexistir para o teu bem e mais que
qualquer outra coisa a marca que jamais te abandonará.
Anseio
infinitamente ser tua heroína para te salvar dos criminosos na rua central e
talvez até te levar para os céus e estar próximo a tua pessoa como a música
está próxima dos músicos. Não quero ser o teu mundo, tampouco o amor da tua
vida, mas apenas a marca – o sinal mais abstrato – a te iluminar na escuridão
qual o dia se recusa a nascer. Desejo ser a tua amiga sem defeitos, teus
instrumentos mais vulgares, tua vítima e cúmplice e, se o destino me permitir,
a gilvaz mais singela – a comprovação da minha infindável presença.
Original de: Conrado Franconalli.

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